Entrevista com Douglas de Albuquerque, do Poesia de Segunda

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O poeta Douglas de Albuquerque faz sucesso no Instagram com o perfil Poesia de Segunda. Nascido no Rio de Janeiro e formado em Design Gráfico pela PUC-Rio, desde cedo desenvolveu o gosto pela arte e literatura.

Ao longo dos anos, Douglas aprimorou suas habilidades no universo da escrita através de participações em saraus e eventos literários. Com o amadurecimento pessoal e artístico, a sensibilidade e entrega pela poesia foi ganhando espaço na sua vida.

No início de 2016, criou o Poesia de Segunda, de forma despretensiosa, para publicar suas poesias no Instagram. O hobbie virou coisa séria e tomou proporções maiores. Hoje, aos 30 anos, Douglas colhe os frutos dessa iniciativa e já acumula mais de 50 mil seguidores.

Confira a seguir a nossa entrevista com Douglas Albuquerque.

Como surgiu seu interesse pela poesia?

Eu costumo dizer que sou leitor antes de ser escritor. Eu leio desde muito cedo. Minha mãe sempre incentivou a ler. E acho que uma coisa tem a ver com a outra: eu comecei a escrever. Comecei a rascunhar poesia aos dezesseis, dezessete anos. E aí eu escrevia com aquela visão romântica do poeta, de quando a inspiração vem você escreve. Então era muito espaçado. Em um ano eu escrevia cinco, quatro poemas. Era uma produção muito pequena.

E eu fiz um intercâmbio, em 2012, e uma ex-namorada que não gostava de poesia, mas eu mostrei o que eu tinha escrito e ela gostou e disse: “Cara, você devia escrever mais. Como é que você nunca me mostrou isso”. E o apoio dela que não gostava de poesia me deu um empurrão e eu resolvi criar esse projeto alguns anos depois, eu já tinha terminado com ela mas eu fiquei com isso na cabeça.

Aí no final de 2016 eu criei o Poesia de Segunda com esse nome porque a minha ideia é que eu publicasse toda segunda-feira um poema. Era um compromisso meu comigo mesmo pra que minha produção fosse no mínimo semanal.

Eu já tinha escrito pra um site chamado Entre Todas as Coisas entre 2013 e 2016. Então eu tinha um público leitor apesar de escrever crônicas ali. Quando eu migrei pro Instagram e anunciei que estava escrevendo poesias, uma parte dessa galera que me lia no Entre Todas as Coisas foi e me seguiu. E eu acho que pelo boca a boca, pela conversa, eu fui ganhando gente. E hoje eu tô aí com 4 anos de projetos e bati 50 mil seguidores e fico muito orgulhoso com isso.

O Poesia de Segunda já tem mais de 50 mil seguidores. Você esperava essa repercussão toda?

Eu já tinha esbarrado com alguns poetas de Instagram. Eu não gosto muito desse termo, mas já tinha gente publicando poesias em redes sociais e eu já tinha visto uma vez ou outra do pessoal vir a fazer nome, mas a maioria desses poetas que publicam online e tem grande público, eles fazem uma poesia mais livre, uma poesia mais modernista pra cá. Muito centrada no eu, mas sem métrica, sem rima, uma coisa muito livre como a poesia modernista já é.

Já o meu estilo, a poesia que eu sempre gostei de escrever já é de um estilo antigo. Eu gosto de contar sílaba, de fazer métrica. Eu escrevo soneto, por exemplo, o que. no Modernismo, até o Vinícius de Moraes trouxe de volta. Mas não tinham mais sonetos sendo escritos desde o Romantismo, no século XIX.

É uma poesia que me encanta e que não é tão comercial, eu não via muita gente nesse estilo quando comecei a publicar. Até hoje eu não vejo, na verdade. Então foi uma surpresa eu alcançar uma galera maior com o Poesia de Segunda. Tem gente muito maior que eu escrevendo poesia online, mas ainda assim é uma surpresa porque eu não achei que fosse um estilo de poesia que atingisse massa. E eu fico feliz mesmo de ver que eu consegui mesmo que sem querer.

Você disse que não gosta muito do termo “Poeta de Instagram”. Porque isso?

Eu não gosto muito desse termo porque eu acho que tem alguma coisa de pejorativo nesse termo. Quando falam “poeta de instagram” ao invés de dizer poeta pura e simplesmente dá um tom pejorativo, por isso que eu não gosto.

Mas, em contrapartida, eu acho que esses – entre aspas – “poetas de instagram” foram responsáveis para, ao menos no Brasil, fazer um revival da poesia que estava um tanto esquecida. Tem muita gente aí, com milhões de seguidores, que migrou do digital e lançou livro físico pra livraria que fez o pessoal voltar a ler poesia. E ainda que seja um estilo que eu particularmente não goste tanto, eu reconheço a importância que esses versos livres, essa galera que começou a publicar online e que começou nessa poesia mais livre atingiu muita gente e foi responsável por muita gente voltar a ler poesia. Ainda não é um best seller, mas já se lê muito mais poesia hoje em dia do que minha mãe lia, minha vó lia.

Então eu acho que tem importância, sim. E chamar de “poeta de Instagram” em um tom pejorativo eu não gosto tanto.

E em quais poetas você busca inspiração para escrever suas poesias?

Eu gosto muito dos românticos ingleses. Aqui no Brasil, Casemiro de Abreu, Álvares de Azevedo, um pouco de Fagundes Varela, esses poetas mais da segunda geração romântica brasileira me influenciam.

Mas essas próprias influências brasileiras são muito influenciadas pela geração romântica inglesa e um pouco da alemã também. Então ainda que pela língua pátria eu esteja mais perto de um Álvares de Azevedo, o próprio Álvares se espelhava no Lorde Byron, na Inglaterra. Então, indiretamente, muito da poesia romântica britânica me influencia por tabela.

E saindo um pouco do âmbito romântico, eu gosto dos mais antigos, clássicos: Shakespeare, Dante, Camões.

Da atualidade, eu gosto muito de Atticus. É um pseudônimo, ninguém sabe quem é, ele publica online também. Eu gosto muito das poesias dele. Também é nesse estilo mais livre, mas ele tem um apelo que me agrada.

E gosto também de um poeta americano chamado Rufus. Ele faz uma tipo de poesia chamado spoken poetry, que é uma poesia menos escrita e mais falada. Ele vai ao microfone e recita alguma coisa. É bem legal também.

Já no Brasil, eu vou confessar que não sou tão fã da poesia contemporânea. Dos simbolistas pra cá, salvo de repente, um Vinícius de Morais, eu não gosto tanto. Não pela língua, mas mais pelo estilo.

Como é o seu processo de criação? Você tem alguma rotina?

Tenho. Quando eu estou mais inspirado, ajuda bem mais, na verdade. Mas aquela visão que eu tinha quando comecei a escrever de que eu esperava bater pra escrever, com esse compromisso que eu botei de toda semana sair um no Poesia de Segunda, eu tinha que parir o poema.

Então eu falei: “Cara, eu tenho que sentar e escrever”. Aí eu percebi que além de inspiração é muito esforço também. A gente tem que sentar, tem que ficar ali. Às vezes não sai tao fácil, às vezes demora alguns dias.

Então, assim, como eu sei que tenho que publicar uma poesia na segunda-feira, a minha rotina de alguns anos é essa: eu sento na sexta-feira à noite eu chego do trabalho, abro um vinho, boto uma música, começo a tentar achar um tema pro poema.

Quando eu tô bem inspirado, na sexta mesmo já sai o poema todo, mas às vezes eu chego num esboço e continuo. Às vezes só no domingo à noite que eu fecho o poema pra postar segunda. Então, assim, dura mais ou menos um fim de semana em média a gestação de um poema.

E você tá lá firme e forte. Inspirado ou não você escreve?

Isso. Pra não dizer que eu não deixei de falhar uma semana, eu deixei passar uma. No início desse ano, inclusive, na primeira segunda de janeiro eu não postei no Poesia de Segunda, porque é fim de ano, deu férias, eu tava mais focado em outras coisas.

Mas nesses quatro anos, a única semana que eu não publiquei foi essa primeira semana de 2020, agora.

Além da poesia, você trabalha com design gráfico. Como você concilia essas duas áreas?

Desde que eu descobri a etimologia da palavra “trabalho”, que vem de tripalium, que era uma ferramenta que botavam nos bois, ali na Roma Antiga, pra eles lavrarem a terra. Era uma coisa que se o boi ficasse parado e não andasse, aquilo machucava eles. Então a associação de trabalho com uma coisa que você TEM que fazer é uma coisa que eu levei para a minha vida.

Eu não digo que meu trabalho é ser poeta porque eu não TENHO que escrever. Eu escrevo por prazer, eu escrevo de graça, eu não ganho nada. Então eu digo que o meu trabalho, o que eu TENHO que fazer é ser designer gráfico, porque eu preciso de dinheiro, eu preciso viver.

Então meu trabalho é ser designer gráfico, mas o meu ofício – que é aquilo que eu fui feito para fazer, a coisa que eu faço, sem ganhar nada – é ser poeta, ser escritor. Então eu consigo dividir muito bem o trabalho do ofício. Quero um dia que o meu oficio também seja minha fonte de renda, mas eu ainda não cheguei lá.

No momento agora, eu levo os dois com uma relação muito direta com o meu objetivo como designer, que é ganhar dinheiro, o meu ganha-pão, meu sustento. E uma coisa mais poética de fato que é escrever poesia, uma ideia que eu tenho, uma realização pessoal e muito orgulho dos meus trabalhos como poeta.

E para o futuro você tem planos de lançar um livro. Você já sabe como será esse livro?

Eu tô em contato com uma editora já. A gente tá se namorando já faz um tempo e o editor que tá trabalhado comigo lá, a gente já teve algumas conversas. Eu não posso dar detalhes, até porque eu não sei de data, mas esse ano eu acredito que saia uma publicação. Vai ser uma editora nova, não é tão grande, mas já vai ser uma puta realização pra mim.

A gente vai pegar 90 poemas que estão publicados no perfil do Poesia de Segunda. E vamos fechar uma publicação com algumas ilustrações. É uma coisa que me deixa muito orgulhoso também.

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