Iara Ira – O poder da fúria feminina

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Em 2016, três cantoras da cena musical do Rio de Janeiro se uniram no espetáculo Iara Ira. Juntas, a gaúcha Duda Brack, a potiguar Juliana Linhares e a carioca Julia Vargas exaltavam a força das mulheres em um espetáculo recheado por uma forte carga dramática. Ao lado delas, está uma banda formada por Elisio Freitas (guitarra, viola caipira, baixo, drum machine e sintetizador), Ivo Senra (sintetizador e baixo sintetizado) e Lourenço Vasconcelos (sintetizador e bateria).

Agora, em 2019, o trio lança um álbum com o registro do show. O disco lançado pela gravadora Joia Moderna inaugura o projeto “Joia ao Vivo”, criado pelo diretor artístico Marcio Debellian e pelo head da gravadora, o DJ Zé Pedro. O álbum está disponível no Spotify, Deezer e Apple Musica.

Iara Ira - Juliana Linhares
Foto: Divulgação

Em entrevista exclusiva ao Portal Universo Artístico, Juliana Linhares conta como foi trabalhar nesse projeto, empoderamento feminino e o processo de criação colaborativo.

Portal Universo Artístico: O que é Iara Ira? O que significa esse nome?

Juliana Linhares: Esse projeto surgiu a partir do encontro entre três cantoras: eu, a Julia Vargas e a Duda Brack. E o Philippe Baptiste, que é o nosso idealizador, teve esse start de dizer: “Galera, vamos fazer um show vocês três? De vocês mulheres fortalecendo essa identidade feminina. E aí o Phill trouxe um amigo, o Caio Riscado, que é performer, diretor, artista, pesquisador e trouxe essa provocação desse nome “Iara Ira”. Porque as pessoas criam um pouco essa visão da sereia como um ser delicado, doce, até meio Disneylândia, meio Ariel. E o mito da sereia mesmo é de um ser monstruoso. Um ser que tem um lado de força de destruição, de envolver o homem e matar.

Então, a fúria da sereia, o mito que estava embutido ali dentro e ninguém mais estava falando surgiu com o movimento do poder das mulheres e a gente surgiu logo junto. E então veio essa ideia de fazer a Iara e a Ira. O canto, mas o canto da ira vem desse lugar da sereia.

O espetáculo chegou pronto pra vocês três ou você, a Duda e a Julia também ajudaram na construção do show?

Ajudamos completamente. A gente teve esse amparo dos meninos inicialmente. Eles que tiveram a proposta de juntar as três, mas o projeto é construído por nós todos, principalmente escolha do repertório, banda, produção, como a coisa se daria. A gente se juntou em estúdio e foi criando, trazendo proposta, repertório, a maneira como a gente se colocaria em relação a cada música, as divisões. Tudo foi muito feito junto em parceria.

Como foi essa criação em parceria?

Olha, nós somos muito diferentes, mas eu acho que foi muito legal porque o Iara Ira não é a cara exata do trabalho individual de nenhuma das três. Mas ao mesmo tempo as três puderam trocar muitas coisas e criar uma cara nova pra um projeto que era novo pra todo mundo. Eu acho que o Iara Ira é um mergulho muito diferente na música pra nós três. A gente encontrou uma identidade sonora dentro do trabalho que desafiou muito nós três. E agora que a gente lançou o disco a gente tá bem mais apropriada dessa identidade e dominando mais o que a gente quer fazer com ela.

Eu acho que a gente aprendeu muito uma com a outra. Cada uma tem uma característica. Depois que a gente foi pro show ao vivo, que é diferente; a forma como cada uma se apresenta, isso influenciou as outras, até a gente conseguir entrar em unidade e entender a identidade teatral juntas.

Não teve muita discussão no sentido ruim. As discussões foram bem positivas. Foi um aprendizado mesmo. Eu, Juliana, aprendi muito com as meninas. Não só em cena, mas criando mesmo. Da forma como cada uma se coloca em relação ao seu trabalho e a forma como cada uma colabora. A Duda tem uma coisa de arranjo, de performance vocal. E a Júlia tem uma coisa de domínio de voz, de aberturas, divisões, rítmica. É muito interessante.

E você mudou a partir desse contato com a Julia e Duda?

Com certeza. Muito. Primeiro porque você ter um contato real com mulheres que cantam juntas é um aprendizado muito interessante. Porque tem um mito muito ruim com cantoras e a gente tenta se colocar juntas pra fazer essa parada. E foi muito aprendizado, muito bonito você entender o espaço de cada uma, o lugar da voz de cada uma, respeitar a escolha de cada uma, o repertório que cada uma quer cantar. Pra mim foi muito bom, eu aprendi muito com elas e com a banda, com todo muito. Acho que cresci musicalmente com esse projeto.

Esse trabalho não é um simples espetáculo musical. Mas tem uma coisa meio dramática, bem teatral, não?

Tem, o Caio, que é o nosso diretor, traz essa verve do teatro. Eu sou atriz, então, meus projetos normalmente, eu tento sempre reunir essas qualidades: como o figurino conversa com a luz que conversa com a cênica que conversa com o lugar onde eu vou estar. Então, eu tenho um trabalho muito forte com a palavra, com o texto. Musicaalmente a palavra é muito importante pra mim, assim como eu coloco ela pra fora.

E isso tudo é teatro. O estudo dessa presença, o lugar onde você se coloca em cena e dialoga com tudo isso, essa aproximação com a teatralidade. E aí, o Caio vem com esse olhar de fora pra assinar isso junto com a gente.

Iara Ira - Juliana Linhares - Julia Vargas - Duda Brack
Foto: Divulgação

É um show muito perfeito, mesmo eu estando dentro, eu tenho essa imprensão que é um projeto muito bonito e mexe com a força da voz de tocar as pessoas, o público feminino, mais diretamente.

Tanto que quando acaba o show, as mulheres estão mais cheias de vida, de ânimo, de gás. Parece que, por mais que a gente não cante só músicas com a temática feminina e feminista, a gente canta música que atravessam os nossos desejos, que passa por nós de uma forma potente pra que a gente tenha força pra atingir, pra devolver aquilo de uma forma potente. E aí, seja a música que for, se ela passa pelo meu corpo, se ela me liberta, ela me traz potência, me traz alegria e o feminino em sua força. Então as pessoas se sentem tocadas pela minha liberdade. E isso, a gente busca muito nesse projeto: um espaço de encantamento feminino pra essa bruxaria acontecer. Pra todo mundo sair mais forte, mais animado, mais potente, mais confiante. E mais livre mesmo.

Mas tem uma luz que se desenha, um figurino, todo um universo construído. Uma atmosfera que é colocada ali pra que a gente atinja esse objetivo de ativar o feminino. E o teatro ajuda a criar essa atmosfera visual e sonora.

Agora o Iara Ira vai sair em um álbum. Como foi levar pro estúdio esse trabalho que era feito no palco?

Foi engraçado porque já faz tempo. Tava até falando disso em outra entrevista e eu falei: “Nem sei se hoje, se a gente fosse começar gravando um álbum, se ele seria exatamente o que ele é”. Porque ele é de 2016. E em 2019, tudo mudou, muita coisa aconteceu politicamente, no universo feminista, na vida, em todo o mundo, nós três mulheres. Tudo mudou.

Então foi engraçado gravar esse álbum de três anos atrás, digamos assim. E ao mesmo tempo foi muito poderoso gravar essa obra. Ela cresce muito. Porque em vez de apresentar pra 300, 400 pessoas em um teatro, você abre pro muito inteiro. Qualquer pessoa do mundo vai poder ouvir aquele disco. Então a gente expande um trabalho que a gente que já passou e recomeça pra um monte de gente que nunca tinha ouvido falar.

E isso faz com que a gente recomece a vida da gente inteira, a partir desse projeto, e entenda o valor que ele tenha, a alegria de poder ter reunido essas pessoas em torno disso, a potência que cada letra tem, o quanto a música é eterna, o quanto se ressignifica. E gravar é muito gostoso. A gente poder ouvir quando você quiser, mostrar pra quem quiser.

Agora em 2019, essa mensagem está mais forte?

Eu acho que cada vez vai ficando mais forte. Porque a gente tende a cada vez se libertar mais e ter mais certeza dos erros históricos bizarros que a humanidade tem em relação aos negros, às mulheres. Um monte de coisa bizarra que eles sempre foram impotentes e exatamente por conta disso foram colocados em uma situação de colonização.

Então eu acho que, a partir da revolução da informação, e eu falo da Internet, a gente se conectou de uma forma que ninguém mais estava conversando entre si e nem percebendo que tinha uma coisa muita errada acontecendo com a liberdade delas e com o direito de igualdade. E eu acho que só tende a ficar mais potente. Não tem mais volta.

Mas, sim, nós três estamos mais dona de si. Com mais maturidade pra falar do assunto, mais parceiras, mais mulheres, com mais entendimento. Então é legal, esse o Iara Ira tenha se expandido pra que as pessoas possam entrar em contato com isso.

Vocês pretendem voltar novamente pros palcos?

Pretendemos. A gente está nessa busca agora pelas datas pros shows de lançamento do disco. Só que é uma banda muito complexa, porque cada pessoa é de um projeto. Então é muito difícil marcar uma data, porque o baterista toca com a Letrux, a Duda vai lançar um disco ano que vem. Então é muito difícil marcar uma data porque sempre surgem uma data e alguém não pode. Mas a gente vai fazer sim.

Você também tem uma carreira por fora do Iara Ira, cantando na banda Pietá. Como foi pra você conciliar esses dois trabalhos?

Ah, eu acho que foi tranquilo. Porque eu trabalho com o teatro, então sempre concilio muta coisa com a música. E, na Pietá, os meninos também tem outros projetos. Então a gente sempre dá um jeito de fazer funcionar os desejos de todo mundo. Pra você trabalhar em coletivo com todo mundo a longo prazo você tem que saber ouvir os desejos e conversar. E um projeto fortalece o outro.

Iara Ira inclusive virou uma música que foi composta pelo Fred Demarca com parceria do Renato Frazão e entrou no disco do Pietá antes de sair do Iara Ira. Enfim, somos uma equipe de pessoas que se gostam.

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