O feliz casamento musical de Barbara Mendes

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Cantora lança Orgânico, álbum de música brasileira contemporânea em que dá a devida dimensão à obra do compositor Tito Marcelo, parceiro na vida da artista

O disco é produzido e arranjado pelo guitarrista Victor Biglione

Como cantora, Barbara Mendes – mineira de criação carioca – é cidadã do mundo.  Poucas cantoras brasileiras têm o currículo internacional de Barbara, que aprimorou o natural dom vocal em escola de canto de Nova York (EUA) antes de rodar o mundo com apresentações em festivais e em casas de shows onde cantou jazz, blues, pop e a música brasileira que apreendeu desde que o samba é samba. Não foi por acaso que Roberto Menescal a convidou para ser a solista vocal de ainda inédito disco feito para o exterior pelo papa da Bossa Nova e previsto para ser lançado neste ano de 2019 por selo espanhol com versões em inglês de músicas do compositor de O Barquinho (1961).

Contudo, como já sentenciou o escritor russo Leon Tolstoi (1828 – 1910), para um artista ser universal às vezes basta falar da própria aldeia. E a aldeia de Barbara Mendes é o Brasil e, em âmbito mais particular, o mundo interior que divide com o parceiro de vida, Tito Marcelo, compositor pernambucano cujo cancioneiro ganha a devida dimensão na voz de Barbara Mendes no álbum Orgânico, o disco que a cantora gravou entre 2017 e 2018 para o Brasil natal e que ora chega ao mercado fonográfico.

Produzido pelo guitarrista Victor Biglione, músico argentino que encontrou uma pátria musical no Brasil, Orgânico é o trabalho mais universal de Barbara Mendes porque, como percebeu outro mestre das palavras, o poeta mato-grossense Manoel de Barros (1916 – 2014), o nosso quintal às vezes pode ser maior do que o mundo. No álbum Orgânico, a intérprete da obra de Tito Marcelo canta música brasileira contemporânea de sotaque universal, ainda que sons e sentimentos do Brasil estejam entranhados em toda a produção.

Foi no próprio quintal que Barbara Mendes colheu os frutos de uma obra que já vem sendo semeada há quase 10 anos por Tito Marcelo, cantautor nascido no Recife (PE) em 1974 – dois anos depois da vinda de Barbara ao mundo – e criado musicalmente em Brasília (DF).

Compositor desde 2010, Tito veio dando voz à própria obra ao longo dessas duas décadas em discografia que já contabiliza três álbuns. O último, O futuro ligeiro da demora, saiu em 2016 de forma independente e abriu portas e ouvidos para a música de Tito Marcelo, mais um cantautor do que propriamente um compositor.

Mas é Orgânico que dá a forma mais bem-acabada ao cancioneiro do compositor porque, no disco, há a voz afinada e inteligente de Barbara Mendes, hábil para desbravar os complexos caminhos harmônicos de músicas como a balada Escárnio, uma das 11 composições que formam o repertório deste songbook.

Primeiro álbum lançado por Barbara Mendes no Brasil em dez anos, Orgânico sucede Nada pra depois (2009) na discografia nacional da cantora, cuja obra fonográfica inclui vários álbuns gravados e lançados somente no exterior. No entanto, Orgânico também é o sucessor natural de O futuro ligeiro da demora por registrar o fluxo mais recente da produção de Tito Marcelo como compositor.

Não há regravações no repertório, mas somente músicas inéditas, compostas recentemente. Algumas, inclusive, parecem ter sido feitas na semana passada, tamanho o grau de atualidade observado, por exemplo, nos versos deRespiração, a música que abre o álbum Orgânico, versando sobre solidões modernas como um grito de angústia parado no ar pesado dos dias de hoje.

Há canções e há momentos. E há canção que se casa com momento, como já poetizou o mineiro Fernando Brant (1946 – 2015). Orgânico ostenta a felicidade do casamento musical da voz de Barbara Mendes com as composições de Tito Marcelo.  E o curioso é que, embora conviva intimamente com esse compositor de criação compulsiva, Barbara nunca tinha se imaginado cantando as músicas do companheiro.

A idéia do disco surgiu naturalmente, de forma orgânica, a partir de show feito pela cantora com Victor Biglione. Ao se perceber dando voz a uma composição de Tito, fez-se a luz para Barbara. Havia todo um repertório virgem a ser deflorado por uma cantora segura, afinada e ávida de músicas boas. E tudo fluiu tão bem no Botânico, home studio de Roberto Alemão, que o que era para ser somente um EP virou um álbum gravado ao longo de um ano, no período delimitado entre setembro de 2017 e setembro de 2018, com as devidas pausas para o amadurecimento natural do repertório e a solução de questões de natureza pessoal.

Sintomaticamente, a primeira música a ser gravada foi Degelo, canção que faz a crônica de história de amor nas vozes de Barbara e Tito em dueto que ganha progressiva passionalidade, inclusive pelo toque do acordeom de Marcos Nimrichter evocar o passo do tango.

Degelo é a única faixa do disco que traz a voz de Tito Marcelo, embora o compositor esteja presente como músico, tocando violão de aço na própria Degelo e em Recalques, balada que se impõe no repertório do álbum Orgânicopelo refrão aliciador e pelo canto falado adotado por Barbara – com suavidade que a distância da prosódia do rap – para realçar o recado dado por Tito na letra da canção.

Orgânico é um disco com músicas de letras fortes”, ressalta Barbara Mendes, citando como um dos muitos exemplos a letra de O Bem do Mal, música que versa em levada meio africanizada de 12/8 sobre dores, perdas e ganhos, sendo parte do inventário emocional do disco.

Por isso mesmo, para manter em evidência a força das letras, a opção foi gravar o álbum com sonoridade orgânica calcada nos toques do violão de aço (sempre pilotados pelo produtor Victor Biglione), do baixo (também tocado por Biglione) e da percussão e da bateria (a cargo de Roberto Alemão).

Com a elegância desse som à disposição, coube a Barbara Mendes encontrar um registro próprio, íntimo e pessoal, das músicas de Tito. Até porque algumas tiveram inspiração igualmente íntima e pessoal, caso de Raro e comum, feita pelo compositor com inspiração na própria mãe. “Eu consegui achar a minha própria voz”, exulta a cantora.

Pelo amplo currículo internacional, que a credenciou a reverenciar a musa referencial Elis Regina (1945 – 1982) em tributos mundo afora, Barbara Mendes soube também encontrar o tom do blues Fera Raras, composição que fecha o álbum Orgânico.

Quem ouve o álbum Orgânico e atesta a sintonia entre cantora e compositor talvez imagine que o casamento musical é longevo. Mas o fato é que Barbara Mendes e Tito Marcelo estão efetivamente juntos na música e na vida há relativamente pouco tempo.  Em 2011, quando ainda morava em Brasília (DF) e gravava o primeiro dos três álbuns autorais (Frágil verde, força de quebrar) Tito Marcelo aceitou a indicação de um amigo e convidou Barbara para dueto na música Perdido pra lua. Só que ambos não se encontraram na gravação da música e tampouco na filmagem do clipe (disponível no YouTube). O primeiro encontro efetivo aconteceu somente em 2014. E a amizade deu namoro.  Casados (sem papel) desde maio de 2015, Barbara Mendes e Tito Marcelo de certa forma oficializam as bodas com o álbum Orgânico.

No disco, músicas como a abolerada bossa Águas Más atestam que a união continua afinada. Orgânico é álbum de música urbana, mas que também incursiona por um Brasil interiorano, evocado sem clichês em Santa D’Água e em Por Onde Passa o Sol, composição introduzida no disco pelo toque da harmônica de Flávio Guimarães. Nos versos que formam a letra da música, Tito Marcelo constrói um imaginário rural sem cair na arquitetura sertaneja mais trivial.

Na disposição das 11 músicas no disco, Desértico completa a trilogia interiorana de Orgânico. Com a diferença de que, em Desértico, a aridez é interior porque o compositor versa sobre um vazio existencial. Os vocalizes de Barbara Mendes ao fim da faixa sinalizam a liberdade que pauta o canto dessa intérprete escolada no idioma do jazz, do blues e da música brasileira mais sofisticada.

Em Orgânico, esse canto soa liberto de convenções e amarras do mercado comum da música. Ao encontrar a própria voz na interpretação do cancioneiro de Tito Marcelo, Barbara Mendes canta música brasileira contemporânea como uma cantora do mundo, cidadã consciente das escolhas seguras feitas desde os anos 1990. Pergunte a Eumir Deodato, também ele um cidadão musical do mundo, o que o pianista acha de Barbara Mendes e ouvirá uma resposta entusiasmada da cantora com quem já dividiu palcos e estúdios no exterior.

O álbum Orgânico é fruto cultivado e colhido na aldeia universal de Barbara Mendes. É o reflexo da harmonia da união pessoal e musical com Tito Marcelo. Mas é também o desenvolvimento individual de uma cantora que soube pavimentar o próprio caminho.

Mauro Ferreira

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