Há artistas que escolhem começar do zero pela estratégia. Outros, pela necessidade de reencontro. No caso de Kaique, o álbum “Sobre Corações” nasce justamente desse segundo movimento: um retorno à própria essência depois da saída do grupo Di Propósito e o início oficial da carreira solo.
Com lançamento marcado para 15 de maio, o projeto apresenta um Kaique mais íntimo, romântico e emocionalmente exposto. Dividido em três partes, o álbum estreia com quatro faixas inéditas — “Moral com Deus”, “Eterno Ex”, “Coração Não é de Aço” e “Sobre Corações”, escolhida como faixa foco. Em vez de apostar em um single isolado, o cantor preferiu construir uma narrativa sentimental em capítulos. “Acredito que cada pessoa vai se identificar com alguma faixa, porque elas têm intenções muito diferentes. Cada música vai fazer parte de um momento de alguém”, resume o artista.
Musicalmente, “Sobre Corações” caminha entre o pagode contemporâneo e referências nostálgicas dos anos 1990. O álbum traz forte influência do romantismo de Belo, com músicas carregadas de sentimento, refrões marcantes e aquela sonoridade clássica do pagode romântico que fez sucesso nos anos 90. Kaique revela ter buscado elementos tradicionais do gênero para construir a identidade sonora do projeto. “Tentamos trazer uma sonoridade usada nos anos 90. Existe uma mistura do atual com a nostalgia do passado”, explica.

Essa atmosfera também se reflete na estética visual do projeto. Inspirado no formato minimalista do canal COLORS, o cantor gravou quatro performances audiovisuais apostando em cenário limpo, fundo monocromático e interpretação emocional como protagonista. “O amor em sua essência. O amor dos pequenos gestos, do papel de parede, do que é sussurrado no ouvido”, define Kaique ao explicar o conceito visual do trabalho.
As quatro músicas funcionam como diferentes estágios afetivos. “Moral com Deus” abre o repertório celebrando um amor leve e grato — “estou com moral com Deus porque ele deu você pra mim”, resume o cantor. Já “Eterno Ex” mergulha na memória de relações que deixam marcas permanentes, enquanto “Coração Não é de Aço” aborda o lado mais doloroso do amor: quando é preciso partir mesmo ainda existindo sentimento.
Inicialmente, essa última faixa seria a escolhida para batizar o álbum. Mas tudo mudou quando “Sobre Corações” surgiu. “Ela englobava tudo: esse momento, essa nova história, os sentimentos dessa fase”, conta. A canção-título funciona como manifesto emocional do projeto. No refrão, Kaique canta: “Não entendo sobre corações, mas estou cantando sobre corações”. A frase sintetiza a proposta do álbum: falar sobre sentimentos sem a obrigação de decifrá-los. “Hoje as pessoas têm medo de sentir. Mas não dá para viver nada em intensidade sem dizer o que sente”, completa.
A faixa também carrega uma dimensão pessoal profunda. Kaique revela que o projeto se tornou uma homenagem ao pai, já falecido, e à relação intensa que ele viveu com a mãe do cantor — uma história atravessada por separações, reencontros e permanências afetivas. “Meu pai tinha muitos defeitos, mas eu tinha certeza de que ele foi embora amando minha mãe. E ela continua apaixonada por ele até hoje”, relembra.
É dessa memória afetiva que nasce o eixo emocional de “Sobre Corações”. O álbum olha para o amor não como espetáculo, mas como permanência silenciosa. Um amor que resiste mesmo depois do desgaste, da distância ou do tempo.
*Estreia na carreira solo*
A saída de Kaique do Di Propósito também atravessa o discurso do álbum. O cantor admite que a decisão vinha sendo amadurecida há muito tempo, mas exigiu coragem emocional para ser concretizada. “Eu sabia que precisaria ouvir coisas, ler comentários e ficar em paz com a minha decisão”, diz.
Segundo ele, o maior desafio da carreira solo tem sido justamente encontrar autenticidade em um mercado acelerado e cada vez mais descartável. Em resposta, escolheu desacelerar. Apostou no romantismo sem ironia, na vulnerabilidade sem filtros e em canções que falam diretamente sobre afeto. “Amar não é cafona. Amar é o gesto mais bonito que existe”, resume.
Em tempos de vínculos rápidos e sentimentos editados para caber em poucos segundos, “Sobre Corações” parece querer fazer exatamente o contrário: permanecer.


