A consulta eleitoral para a reitoria da Universidade Federal Fluminense, em curso neste ano, tem evidenciado uma disputa que ultrapassa os limites acadêmicos e escancara contradições no campo político, especialmente entre setores identificados com pautas progressistas.
De um lado, a chapa formada pelos professores Fábio Passos e Claudete se apresenta como continuidade de uma universidade comprometida com políticas de inclusão. O grupo é associado ao fortalecimento de ações afirmativas e à ampliação de direitos dentro da instituição, incluindo iniciativas recentes como o avanço nas políticas de cotas, entre elas a inclusão de pessoas trans.
No campo oposto está o ex-reitor Roberto Salles, que comandou a universidade entre 2006 e 2014. Sua gestão foi marcada por intensos conflitos com estudantes, técnicos e professores, protagonizando episódios de mobilização e ocupações contra medidas adotadas à época. Salles também ficou conhecido por sua postura crítica às políticas de cotas, tendo inclusive ironizado o tema ao afirmar que seria necessário “importar índios” — declaração que gerou forte repercussão negativa.
Além disso, durante sua gestão, episódios envolvendo perseguição a estudantes também marcaram sua trajetória. Em 2014, Roberto Salles abriu um processo de sindicância pedindo a expulsão de um estudante da UFF, negro, gay e militante do PSOL, o que à época gerou forte reação de movimentos estudantis e setores organizados da universidade.
O ponto que mais chama atenção no atual cenário eleitoral, no entanto, é o apoio de lideranças ligadas ao PSOL à candidatura de Salles. O partido construiu sua trajetória política nacional associado justamente à defesa de políticas afirmativas, inclusão social e combate às desigualdades — bandeiras que entram em choque direto com o histórico do ex-reitor.
Entre os nomes que orbitam esse apoio está a deputada federal Talíria Petrone, uma das principais vozes do partido no Congresso Nacional e reconhecida por sua atuação em defesa dos direitos humanos, das mulheres e das populações historicamente marginalizadas, além dos deputados federais Henrique Vieira, Tarcísio Motta e Chico Alencar.
A aproximação levanta questionamentos inevitáveis: trata-se de uma articulação pragmática no cenário local ou de uma contradição que expõe fissuras internas no partido? Como conciliar o discurso público de defesa das cotas com o apoio a um candidato que construiu parte de sua trajetória política em oposição a essas políticas?
Nos corredores da universidade e entre movimentos estudantis, o tema já provoca debates. Para parte da comunidade acadêmica, o apoio representa um desalinhamento com princípios históricos. Para outros, pode refletir uma leitura estratégica da disputa eleitoral.
Enquanto isso, a eleição da UFF segue mobilizando não apenas a comunidade universitária, mas também atores políticos externos, transformando o processo em um termômetro das tensões entre discurso e prática dentro da esquerda brasileira.


