O luto como palco: Bruna Longo transforma o tabu da morte em arte viva
ARTE E REFLEXÃO
Indicada ao Prêmio APCA, a atriz paulista que encantou palcos internacionais dedica sua dramaturgia a investigar como encaramos as perdas e a finitude.
Falar sobre a morte ainda é um dos maiores tabus da nossa sociedade. Mas, para a atriz e dramaturga Bruna Longo, o tema deixou de ser um “assunto proibido” para se tornar a matéria-prima de uma das carreiras mais instigantes do teatro contemporâneo. Após o sucesso de “Queda de Baleia” (espetáculo que nasceu de uma dor pessoal após a perda de seu pai em 2022 e rendeu a ela uma indicação ao Prêmio APCA 2025), Bruna agora prepara um novo mergulho no tema com “Criatura, uma Autópsia”.
O luto que cura
A gênese de “Queda de Baleia” foi um processo de busca por respostas. Ao mergulhar em rituais funerários de diferentes culturas, Bruna não apenas encontrou conforto, mas descobriu que falar sobre o luto é um ato de compartilhamento coletivo.
“Muitas pessoas me perguntam se é difícil fazer o espetáculo. Mas, para mim, aconteceu o contrário: falar sobre a dor com tanta frequência tornou o assunto mais fácil de abordar”, revela.
O espetáculo, que teve apresentações icônicas em capelas de cemitérios, provou ser um ponto de encontro humano. Em suas temporadas (inclusive com sucesso internacional em Edimburgo), a peça transformou a dor individual em uma experiência comunitária, onde o público frequentemente compartilha suas próprias histórias de perda após o cair das cortinas.
Estética e inspiração zen
Na busca por uma identidade visual para “Queda de Baleia”, a atriz encontrou nas referências japonesas (especificamente no teatro Nô e na filosofia zen-budista) a chave para a encenação. O cenário, inspirado em jardins japoneses, reflete a busca pela paz em meio à finitude, provando que a dramaturgia de Bruna busca referências muito além do teatro convencional.
De Frankenstein à busca pela identidade
Se “Queda de Baleia” é um mergulho subjetivo e íntimo, o novo trabalho, “Criatura, uma Autópsia”, que estreia dia 2 de novembro no espaço ºANDAR (Higienópolis, SP), segue um caminho distinto. Interpretado através do teatro físico, o espetáculo revisita o mito de Frankenstein, de Mary Shelley, para falar sobre solidão, a busca por identidade e a própria vida da autora da obra.
“É um espetáculo que vem de fora para dentro. Enquanto a outra peça fala do meu luto, esta mergulha na dor de uma criatura que busca seu lugar no mundo”, explica Bruna.
O futuro: A morte para todas as idades
A trajetória de Bruna Longo mostra que a morte é um tema infinito. A atriz já sinaliza seus próximos passos: ela prepara um projeto de teatro físico focado no tema e, atendendo a uma demanda real do público, pretende criar um espetáculo infantil sobre a perda.
Para Bruna, encarar o que é inevitável é a forma mais corajosa de viver o presente. Se as peças são “coincidências” ou um chamado vocacional, não importa; o fato é que ela encontrou na cena o lugar perfeito para que o luto perca o peso do tabu e ganhe a leveza da arte.
Dica do Universo Artístico: A temporada de “Criatura, uma Autópsia” acontece durante todo o mês de novembro no espaço ºANDAR. É um espetáculo para quem aprecia teatro físico e gosta de ver como grandes clássicos literários podem ser reinventados com uma lupa contemporânea.
Acompanhe as artistas que usam o palco para questionar o mundo e transformar a nossa visão sobre a vida aqui na coluna Variedades.











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