Subutilizada e sem infraestrutura adequada, área federal já reúne corredores, atletas e famílias em movimento que pede criação do “Aeroparque”, espaço voltado ao lazer, esporte, saúde mental e preservação ambiental.
Um movimento popular iniciado no fim de 2025 vem ganhando força em Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense. Moradores, corredores, atletas e lideranças locais se uniram em defesa da transformação da área do antigo Aeroclube de Nova Iguaçu em um grande parque urbano público — projeto batizado de “Aeroparque”. A mobilização já reúne cerca de duas mil assinaturas em um abaixo-assinado online e busca sensibilizar autoridades e sociedade sobre o potencial social, ambiental e urbanístico da área.
Localizado em uma região estratégica da cidade, o espaço pertence ao Governo Federal e encontra-se, em grande parte, ocioso e abandonado. Mesmo sem iluminação, segurança adequada ou estrutura de acesso eficiente, centenas de pessoas frequentam diariamente o local para a prática de atividades físicas, especialmente corrida de rua. Os horários mais movimentados são justamente no início da manhã e próximo ao pôr do sol, quando ainda há luz natural suficiente para treinar.
O Aeroclube de Nova Iguaçu foi fundado em outubro de 1942, em plena Segunda Guerra Mundial, e durante décadas se tornou referência nacional na formação de pilotos e operações de pequeno porte. Até os anos 1990, o local era considerado um dos mais importantes centros de aviação da região. Com o passar dos anos, porém, o espaço sofreu abandono progressivo, enfrentou interdições e perdeu sua função original. Hoje, a enorme área permanece subutilizada no coração de uma das maiores cidades do estado do Rio de Janeiro.
Segundo dados do IBGE, Nova Iguaçu possui população estimada em mais de 840 mil habitantes, sendo uma das cidades mais populosas do estado. Além disso, o município funciona como polo regional da Baixada Fluminense, recebendo diariamente milhares de pessoas de cidades vizinhas em busca de serviços de saúde, universidades, comércio, lazer e oportunidades de emprego. Para os organizadores do movimento, essa vocação regional reforça ainda mais a necessidade de um grande parque urbano público na cidade.
À frente da mobilização, entre outras pessoas, está Fernando Cid, um dos articuladores da campanha que defende a criação de um parque nos moldes de espaços urbanos emblemáticos como o Ibirapuera, em São Paulo, o Aterro do Flamengo e o Parque de Madureira, no Rio de Janeiro, além do Parque Natural do Gericinó Prefeito Farid Abrão, em Nilópolis — frequentemente citado como exemplo de transformação bem-sucedida de uma área federal em espaço público de convivência.
A proposta prevê integrar os equipamentos já existentes no entorno, como o Centro Olímpico, a universidade e o estádio do Nova Iguaçu Futebol Clube, criando um espaço voltado ao esporte, cultura, convivência social, preservação ambiental e qualidade de vida.
“Parques urbanos funcionam como verdadeiros hospitais a céu aberto. Eles ajudam a prevenir doenças físicas e emocionais, promovem encontros, estimulam a convivência e melhoram a vida da cidade”, resume Fernando Cid.
*Histórias transformadas através do espaço*
Além da defesa ambiental e urbanística, o movimento também se sustenta em histórias reais de transformação vividas dentro do próprio aeroclube. Há relatos de pessoas que enfrentaram a depressão através da corrida, mulheres que encontraram no esporte um caminho de superação após perdas familiares e até pacientes oncológicos que passaram a praticar atividade física como parte do processo de recuperação física e emocional.
Uma das histórias lembradas pelos frequentadores é a de uma mãe que perdeu o filho vítima da violência e encontrou na corrida um caminho para enfrentar a dor e reconstruir a própria vida. Outra envolve uma jovem que treinava diariamente no local para testes físicos de concurso público e conseguiu aprovação. Há ainda o caso de uma mulher diagnosticada com câncer que ganhou um tênis de corrida do próprio médico e passou a frequentar o espaço como parte do tratamento.
*Crescimento das corridas de Rua*
O movimento destaca que a corrida de rua vive um crescimento expressivo no Rio de Janeiro e em todo o Brasil, impulsionada não apenas pelos benefícios físicos, mas também pelo impacto positivo na saúde mental. Em Nova Iguaçu, porém, a ausência de um parque urbano estruturado faz com que muitos moradores precisem se deslocar para outras cidades em busca de locais seguros e adequados para treinar, como a Lagoa Rodrigo de Freitas, o Aterro do Flamengo, o Parque de Madureira e o Parque de Gericinó.
Atualmente, atletas de alto rendimento também utilizam o aeroclube como espaço de preparação física. Sem iluminação pública adequada, os treinos acontecem principalmente ao amanhecer, muitas vezes antes das 6h, e no fim da tarde.
Os organizadores alertam ainda para a possibilidade de a área ser destinada à expansão imobiliária, o que aumentaria a ocupação de concreto e provocaria impactos urbanos e ambientais na região. Para o grupo, transformar o antigo aeroclube em parque representa uma oportunidade histórica de requalificação urbana e preservação de uma grande área verde no centro da cidade.
A estratégia inicial do movimento é ampliar a mobilização popular para sensibilizar autoridades e fortalecer o debate público sobre a necessidade de Nova Iguaçu contar com um parque urbano de grande porte. O projeto já recebeu apoio da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro.
“Estamos falando de um legado para as futuras gerações. Um espaço democrático, acessível e transformador, capaz de melhorar a qualidade de vida de toda a população iguaçuana e da Baixada Fluminense”, defendem os organizadores.
Mais do que um espaço de lazer, os defensores do Aeroparque acreditam que o antigo aeroclube pode se tornar símbolo de uma nova relação da cidade com o esporte, o meio ambiente, a saúde coletiva e a ocupação inteligente dos espaços públicos.


